Um Time da Pesada - Crônica

      08 JAN 2019
      08 de Janeiro de 2019
      São Paulo - Quando adolescente em Garanhuns era um boleiro de marca maior. Não perdia uma pelada. Nos campinhos de terra batida da Boa Vista, até os jogos noturnos na praça São Sebastião nas ruas de paralelepípedo, com bola de borracha. Mais, o que mais gostava mesmo eram as peladas de finais de semana nos times formados nas ruas do bairro. Era mais desafiador, os jogos muito disputados pois havia uma rivalidade muito grande entre os times. Mas, precisamente ai, é que eu nunca tive muitas muitas chances. Nunca fui um garoto muito bom de bola a ponto de ser disputado por algum time daqueles, ou sequer ter meu lugar assegurado entre os onze. Minha única chance era tentar um vaga no time de Boré. Boré era um baixinho em cuja casa abrigava um arremedo de oficina mecânica lá na Rua José Leitão. Arremedo, porque ele fazia mais gambiarras do que consertos confiáveis. Boré era ajudado pelos seus dois irmãos. Todo domingo de manhã lá estava eu esperando minha chance de jogar no time de Boré. Infelizmente minha vez nunca chegava. Havia sempre uma desculpa esfarrapada e sempre ficava fora do jogo. Um belo dia um amigo me confidenciou que Boré teria uma baixa no dia seguinte. Um jogador que atuava na mesma posição que eu não poderia comparecer ao jogo. Senti que chegara a minha vez. Logo cedo no domingo apareci lá na casa do Boré, o ponto de encontro. Ele estava muito ocupado dando as instruções para a partida e começava a distribuir as camisas do jogo que ia ser realizar no alto da Boa Vista, um bom campo de terra batida. As camisas rubro-negras eram trapos sujos de graxa com dezenas de buracos por todos os lados. "Nosso orgulho" dizia ele. Fiquei aguardando cheio de esperanças. De repente vi que a última camisa havia sido dada a outro jogador. Falei incontinenti: Boré!  Eu não vou jogar hoje? Ih! rapaz sei que tu é muito bom de cabeça. O pessoal te chama de Nino do Náutico, né? Mais eu já tenho o ataque escalado. Mais quem vai jogar no ataque Boré? Bem. Disse ele. O ataque ser formado por eu, Cagado e Tonho meu irmão. Mais Boré? Cagado de centroavante? Isso mesmo. Hoje vou dar essa chance pro Cagado. Cagado era o irmão mais novo de Boré. Nunca vi na vida um apelido tão bem colocado como aquele que colocaram nele. O cara tinha uma barba vermelha, era gordinho com uma barriga saliente que sempre estava saindo fora da camisa sempre aberta. As calças sempre muito largas e quase sempre estavam caindo. Quem olhava Cagado por trás se divertia. Metade da sua bunda branca estava sempre de fora. Ou seja, parecia que ele sempre estava literalmente cagado.

      Boré! Mais Cagado é lento, não corre nada e tu vai colocar ele? Primeiro, que é meu irmão mais novo e segundo que não lhe devo satisfação. Entendesse? Tá bom Boré. Mais Tonho? Tonho só vive bêbado Boré.Tonho não consegue ver nem a bola direito no campo. Tonho era o irmão mais velho de Boré movido a cachaça. Não. Eu vou butar ele. Ele não bebe desde ontem e pediu um voto de confiança. Mais Boré ontem eu passei na oficina e ele não parava de pé, tava bêbado, tava querendo acender um cigarro na bateria do carro, era faísca pra todo lado Boré. Ô Boré e que tal de de meia? Mais  tu num sabe que  o meia é Véião? Véião morava na Rua do Cajueiro e coincidentemente também era ajudante de oficina mecânica. E jogava direitinho. Canhoto. Bem habilidoso. Véião poderia ser o sonho de qualquer time de pelada se não fosse por um estranho detalhe. Mesmo muito habilidoso e bom chutador Véião tinha um problema que ninguém até aquela data tinha conseguido explicar, nem os médicos. Simplesmente quando fazia uma jogada individual, driblando dois ou três jogadores e chegava na boca do gol para marcar, não raro chutava a bola para os lados e começava a chorar copiosamente. Também tentei argumentar com Boré o problema do Véião. Mais não teve jeito. O caso do Véião eu resolvo disse ele. Hoje ele não vai chorar.  Bem, depois daquele dia nunca mais voltei a passar nem perto da oficina de Boré e muito menos pedir para jogar no seu time. Não foi fácil ter que admitir durante um bom tempo, que tinha sido barrado por um cagado, um bêbado e um chorão. Uma tragédia.

      Por Clovis de Barros Filho

       *Clovis de Barros filho nasceu na Serra da Prata (Iatecá). Estudou no Colégio Diocesano de Garanhuns do Admissão ao Científico onde concluiu em 1968. Reside em São Paulo desde 1970. É Licenciado e Bacharel em Química Industrial pela Universidade de Guarulhos e Químico Industrial Superior pelas faculdades Osvaldo Cruz/SP.

      Fonte: Blog do Anchieta Gueiros

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